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Despender-me
e outrora
despir-me
Mais um duplo, por favor.


Viração

Riu-se
tola
em sua exibição
de espelho

Viu-se
de lado
o perfil em ares
de ironia
cega

Era tarde
e as mulheres
no bar
ludibriavam-se
em suas alegrias
vãs

Era cedo
e os homens
deixavam-se sorver
pelos copos
vazios
mais um
e outros

Todas
tentavam enganar a dor
disfarçada
de sorrisos
de infertilidade sã

Todos
espremiam o sumo
vergastando os olhos
roucos

Viviam
o adormecer
de amores loucos
despertos
em suas entranhas

Elas
mentiras
eles
ilusões

Reflexos
preparando a noite
após o dia
seguinte


Dizlexia 32

Eu queria ser,
poeta
mas como
não sei
amar soul
besta mesmo


Anos-luz

Era
um espaço
pequeno
mas caberia uma constelação


Levanta-se
uma Serenidade em chão
e ela habita
o céu da boca

e Ela remove o limo
que nos cobre
as gargantas

Não se podem ouvir rumores
de vez que já foram esquecidos
e ergue-se a face
de queixo largo
e olhos límpidos

os espíritos errantes falaram
e beberam um pouco

Levanta-se
uma Serenidade em terra
e expira-se
a ira
de vozes em vão

e calam-se os ventos
mas veleja a brisa

Toma-se a mão
e verte-se a lágrima
calma
e branca

os tendões estão firmes
os pés estão firmes

levanta-se
uma Serenidade


Pensamento do dia

O trivial é poético. Basta abrir os olhos.


Aurora

No dia seguinte
despertaram os gigantes adormecidos
e eles que eram pedra
levantaram-se em carne viva
devorando o mundo

e eles tinham as gengivas ensanguentadas
e os dentes tortos
o bócio
lhes brotava das gargantas estéreis
carregando no cerne os corpos de rebentos não nascidos

o sangue as veias os músculos
pulsavam a olho nu
escancarado
e eles tinham as gengivas amareladas
e os dentes mortos

os mortos
os respeitavam em seu silêncio de mortos
e os vivos
os reivindicavam em seu egoísmo de vivos

os gigantes despertos
andavam pela terra a recolher seus irmãos
e os arrancavam das lamas que ferviam

e os gritos eram férteis
e a Dor era fértil
e os mais afortunados sorriam ao abraçá-La

e a esperança era tênue
e não havia alento
bálsamo
de toque
de mãe

No dia seguinte
os gigantes se deram
as mãos em roda
e começaram a girar
e torvelinhos lhes saíram dos ventres
esfolando o mundo

e suas línguas
varriam os campos
e suas mãos
tombavam as florestas
e os rebentos caíam de suas gargantas
dilacerando o mundo

e eles tinham as gengivas despedaçadas
e os dentes rotos

e o medo era fértil
e a Dor era fértil
e os menos afortunados sofriam ao provocá-La

No dia seguinte
os gigantes adormeceram
e foram enterrados com as cabeças para fora
e a terra os fertilizou

e das suas chagas
germinaram rios cristalinos
e os seu pés encarquilhados
firmaram raízes verdes
e das órbitas vazias dos seus olhos
jorraram horizontes turvos
incertos

e das suas narinas
nasceram flores
e das suas fibras densas
o sol e a lua se uniram em novo
Amanhecer

No dia seguinte
os gigantes dormiam
e eles tinham as gengivas ensanguentadas
e os dentes tortos


Um dia…

(Em homenagem a Millôr Fernandes. E para a minha irmã Bethania Duarte.)

Um dia
eu não voltarei a mim
Dormirei nos braços de Morfeu
e acordarei às portas do céu

Um dia
eu não voltarei a mim
Seguirei eterno
e baterei às portas do inferno

Um dia
eu não voltarei a mim
Deixarei as portas
e caminharei por linhas tortas

Um dia
eu não voltarei a mim
Colherei o seu chão
e me esquecerei de que houve refrão

Um dia
eu não voltarei a mim
Cerrarei o meu ato
E levantarei insensato

Um dia
eu não voltarei a mim
E neste dia
estarei no meu lugar

===

E deixo aqui uma pérola de Dudu Nicácio e Rosa Souki, nas vozes de Leopoldina e Dudu Nicácio. Nada mais a acrescentar.


Escassez (1)

Se fato
resgato
acato


Ambiguidade (2)

Do hábito
que freio
re-creio


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