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Alfarrábios (X)

Pois é, estou devendo um monte de posts novos. É que o tempo anda curto nas últimas semanas, face a tantos acontecimentos. Aí, começo a escrever e acabo parando no meio. Então, mantendo a tradição, reedito mais um alfarrábio. Este, particularmente, é bem nostálgico. E embora hoje eu talvez mudasse um pouco o estilo do texto, fico muito feliz em tê-lo escrito, porque a essência do que foi dito ainda prevalece na minha alma.

Além da revisão costumeira, incluí os links – e o vídeo que “ilustra” a exata versão da música que eu costumava ouvir. Boa leitura!

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Inquietude VI (Infância)

Belo Horizonte, 29 de março de 2005 (terça-feira) – 16:17

Lá vai o trem com o menino
Lá vai a vida a rodar
Lá vai ciranda e destino
Cidade e noite a girar
Lá vai o trem sem destino
Pro dia novo encontrar
Correndo vai pela terra
Vai pela serra
Vai pelo mar
Cantando pela serra do luar
Correndo entre as estrelas a voar
No ar
No ar

(GULLAR, FerreiraO trenzinho do caipira)

Quando criança, eu costumava pensar que era aquele menino que ia no trem. E ficava imaginando as maravilhas que conheceria ao viajar por caminhos tão belos. Naquele tempo, eu ouvia histórias infantis ainda em discos compactos, coloridos, e podia acompanhar os textos nos livrinhos que vinham junto com eles.

A do trenzinho era uma das minhas favoritas, embora seja difícil falar qual delas eu realmente preferia. Tinha uma do papagaio que queria sair da gaiola. E também aquela do urubu malandro que capturava uma pomba rolinha para vender aos homens inescrupulosos. Eu torcia, torcia para que o trenzinho chegasse ao seu tão sonhado destino, me levando com ele. E para que o papagaio fosse libertado. E para que a pomba rolinha se livrasse das garras do malvado urubu.

Não importava quantas vezes eu ouvisse cada uma daquelas histórias, a ponto de saber de cor todos os textos e gravuras que via constantemente nos livros. E, na semana seguinte, queria ouvir de novo, como se não soubesse o final. E vibrava. E me sentia feliz com os finais felizes daquelas historietas que também me permitiram conhecer um pouquinho da rica música brasileira. Nara Leão, Gal Costa e Chico Buarque eram os intérpretes daquelas fantásticas melodias, que levavam consigo letras não menos belas.

Hoje, consigo compreender melhor por que os grandes literatos, poetas, compositores, enfim, têm tanta predileção pela infância. É um lado tão romântico quanto aquele que sonha encontrar o par perfeito, a alma gêmea, a felicidade a dois. Por mais que pareça (ou seja mesmo) clichê dizer que as crianças é que são felizes de verdade, nossos corações não cansam de repetir aqueles sentimentos nostálgicos.

Quantas vezes, numa mesa de bar ou durante uma importante reunião cujo assunto já se desviou, não nos pegamos falando dos desenhos animados que assistíamos na TV, das músicas que costumávamos ouvir quando pequenos, das brincadeiras preferidas? E eram todas “melhores” do que as de hoje. Não há cartoons, “baladas” ou brinquedos que cheguem aos pés daqueles da nossa infância. É como comida de vó.

Curioso que, ainda hoje, ouvindo a voz de Edu Lobo entoar o poema de Ferreira Gullar sobre a melodia de Heitor Villa-Lobos (grandes artistas que, graças a Deus, meus pais me permitiram conhecer ainda tenro), acredito ser o menino que vai naquele trem, em busca dos mesmos sonhos de outrora. A vida, a cidade, a noite, tudo continua a girar sem destino, em busca do dia novo, da nova harmonia da vida.

Pela terra, pela serra, pelo mar, pelo ar, o trenzinho caipira vai nos conduzindo em direção àquilo que procuramos a cada dia de nossas vidas. No caminho, pedras, percalços e, por vezes, um descarrilamento. Mas sempre colocamos os trilhos no lugar, porque o caminho a percorrer é grande, e não queremos parar no meio. Alguns ainda tentam desistir, mas, ainda que pela curiosidade, são impelidos à frente. Normalmente, os que enfrentam os maiores obstáculos são os mais obstinados.

Hoje, os discos compactos e coloridos já se tornaram CDs, também compactos e coloridos, e posso ouvir o Edu Lobo cantar numa gravação digital, reproduzida por um aparelho que é bem mais de dez vezes menor do que aquele antigo “som” que desde criança aprendi a manusear, porque queria colocar os meus próprios discos, com todo o cuidado para não estragar.

E hoje, quando ouço o Trenzinho, ainda não me canso de repetir a faixa, que chega a fazer brotar lágrimas nos meus olhos. Hoje, pego o violão, tentando acompanhar a canção, mas meus dedos endurecidos pela falta de prática e os ouvidos, um pouco calejados pelas dificuldades do mundo, não me permitem ser fiel a toda aquela beleza. Então, fecho os olhos e procuro escutar com a alma, deixando que cada nota e cada palavra me evoquem um sentimento que é, ao mesmo tempo, novo e antigo. Alegre e triste. Nesses momentos, sinto-me plenamente feliz, porque ainda não perdi a minha capacidade de acreditar. De sonhar. De me emocionar de verdade. E de viver.

Na interpretação de Edu Lobo, conheci o poema de Ferreira Gullar, a música de Villa-Lobos. E naquele velho equipamento, na sala daquela casa que tanto amei em Ouro Preto, aprendi que existe um trem que pode nos levar para onde quisermos.

À querida amiga Marcinha, por quem meu carinho há muito deixou de ser simplesmente especial. Que você realize todos os sonhos que acalenta, mas nunca se esqueça de que o aprendizado edificante é a chave para a verdadeira felicidade.

03/04/2005 (domingo) – 12:56

(Publicado originalmente às 20h16 de 03/04/2005, em http://marcosarthur.blogspot.com.)


Alfarrábios (IV)

Ultimamente, tenho andado meio descrente do mundo. E não obstante o meu desejo de escrever, tem sido difícil terminar os ditos, os contos, as reflexões… Aí tudo vira um monte de rascunhos. E por aí comecei a ler de novo o que andava escrevendo nos idos de uma vida passada. Breve, recente, mas passada. E resgatei um texto que me lembrou um eu mais otimista. E acabei me lembrando também que, à época, esse mesmo texto inesperadamente emocionou duas amigas muito queridas que já não vejo há algum tempo. Bom, aí vai.

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Se eu morresse hoje…

… Eu agradeceria a Deus por ter me permitido viver. Por ter me concedido cada instante que, inequivocamente, passei na Terra. Eu me ajoelharia a Seus pés e reconheceria quão valiosas haviam sido as lições que aprendi.

Eu agradeceria por ter pisado na grama descalço e por ter sentido as águas correrem sob os meus pés quando senti o mar pela primeira vez. Pelas inúmeras belezas que vi, desde as maravilhas da natureza até as que foram construídas pelos homens. Pela música que tantas vezes correu pelos meus ouvidos, emocionando-me. Pelo gosto de cada sabor, desde o amargo até o doce.

Eu agradeceria pelos ternos abraços das minhas avós e pelas comidinhas gostosas que elas me permitiram provar. Pela sabedoria de meus pais, que me ensinaram a ser uma pessoa de caráter e a respeitar àqueles que de mim se acercassem. Pelo carinho das minhas irmãs, que nunca me deixaram só.

Eu agradeceria cada prazer que me foi dado viver, em cada um dos sentidos e em todos os sentidos. Pelo primeiro beijo. Pela primeira transa. Pela sensação divina de me sentir amado por uma mulher. Pelos amigos inesquecíveis, lembrando sempre que a amizade é das formas mais perfeitas de amor.

Se eu morresse hoje, eu agradeceria a todos os que me fizeram o bem, porque me ensinaram a amar. E agradeceria também aos que me fizeram mal, porque me permitiram aprender a ser o que hoje sou.

A todos, muito obrigado.

Belo Horizonte, 22 de novembro de 2004 – 23:43.

(Publicado originalmente às 20h18 de 24/11/2004, em http://marcosarthur.blogspot.com.)


Alfarrábios (III)

Continuando a resgatar o que há muito se fez. Ou seria se “faz”?

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Ramerrame

Belo Horizonte, 11 de abril de 2005 (segunda-feira) – 23:23

Não ouso
Respiro
Levanto
E me viro

Se fogo
Não vejo
Afasto
O ensejo

Não faço
Progresso
Consumo
O processo

Se claro
Padeço
É certo
Mereço

Não julgo
? Devia
Sensato
? Seria

(N)a terra
Esterco
A vida
Que cerco

Não falo
Nem gozo
Tramito
E toso

Se canto
A medra
Tropeço
Na pedra

Não verso
E tento
Escrevo
Tormento

Se quero
Aresto
O dito
Empresto:

“Êta vida besta, meu Deus!”

11/04/2005 – 23:44

(Publicado originalmente às 13h22 de 14/4/2005, em http://marcosarthur.blogspot.com.)

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1 Comments:

At 18/4/05 19:35, Anonymous GaBi® said…

Oie….td bom!?
Adoorei o textinho!!! confesso q só tive paciencia de ler ele….
hahahaha….tb blog de jornalista q + q eu esperava neh!?!?
hahaha…..
te adooro mto…to com saudades…vê se aparece….
bjokass
F
U
I
… Gabi


Alfarrábios (II)

Vamos lá: para o segundo da série, nada melhor do que um encontro de amigos. As palavras e/ou expressões entre colchetes indicam leves alterações no texto original.

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Top soci (ou agulhagem total)

Belo Horizonte, 6 de abril de 2005 (quarta-feira) – 00:07

Depois do fritacê trabalhístico usual, eu já acreditando que ia desfrutar de minha caminha que jazia solitária no meu quarto, recebo um convite do jonhado culete para a comemoração do aniversário da irmã dele.

Confesso que hesitei por instantes, haja vista que estava cansado e parecia um camarão do sol de meio-dia que havia sido obrigado a suportar. Porém, como não podia de forma alguma negligenciar um compromisso “familiar” de tal envergadura, decidi responder positivamente e aceitar a cerveja que gentilmente me era oferecida.

Na prática, parecia ser mais um daqueles dias em que, na manhã seguinte, eu levantaria com aquela “leve” ressaca, para encarar mais um dia de ralação. Nesse quesito, creio que não estava enganado (vamos ver quando eu levantar).

(Esperem aí, que depois do macarrão instantâneo, termino a parada.)

Mas, na teoria, era mais uma chance de rever os amigos que ultimamente me têm proporcionado [alguns] dos melhores momentos da vida.

As médicas falaram de ginecologia e obstetrícia, os(as) engenheiros(as) falaram de exatas, e o jornalista falou um pouco de cada baboseira. Outros falaram de outras coisas. No final das contas, todos falaram de tudo e a rachação foi geral.

Imagine você receber uma mensagem dizendo que o sapo-boi parece uma perereca (mas é perereca ou sapo?) daquelas bem carnudas… Só estando presente para entender uma besteira dessas. Risos gratuitos, cada um mais alto que o outro.

As características de cada um na fala de cada um, nos gestos, nas palavras. Se não fosse ela, não seria tão ela. Se não dissesse aquilo, não seria tão ela (outra [ela], é claro). Se não soltasse uma daquelas, não seria ele. E assim por diante.

Entender? Esqueça. Você só vai conseguir quando tiver a sua própria turma de amigos (espero que já tenha) e eles estiverem todos ao redor de uma mesa, tomando cerveja, alguns fumando cigarros, outros destilando o simples prazer de estar juntos.

Música, bate-papo e um cinzeiro que lembrava as canecas dos festivais de cerveja que meu pai já tanto frequentou. Drogas? Nenhuma ilícita. Mas garanto que o refrigerante light era a pior delas. Talvez, a religião, a política ou o futebol (mas quem disse que discutimos isso?). Não importa.

De repente, uma quer ir embora porque está cansada, outra, porque também está cansada – e quase gripada. Então, naquele momento [em] que quase ignoro a minha própria casa (não, não estou bêbado), a família resolve me levar em casa e vigiar se estou mesmo entrando direitinho.

Nada comparável. Só a vontade de abraçar a todos e dizer o quanto gosto deles. O quanto são importantes para mim. E quanto o tempo, por mais cronológico que seja, não tem o menor valor “temporal” quando se gosta de verdade.

A vocês, Dani, Lavis, Lina e Marcinha, o meu eterno carinho.
06/04/2005 – 00:47

Um pequeno glossário:

TOP: adjetivo de dois gêneros – o “mais mais”, o melhor, o que está no TOPo; que detém o máximo de qualidades essenciais para satisfazer certos critérios de apreciação (quando escrito, geralmente é utilizado em letras maiúsculas, para causar uma TOP impressão). Ex.: o T. amigo; o T. esquema; o T. lugar.

soci: adjetivo de dois gêneros – forma sucinta (derivativa) de “social” – bacana, legal; interessante, que atrai a atenção; que agrega alto valor; que diz respeito ao ótimo-estar das massas e/ou indivíduos (é comumente utilizado precedido do adjetivo TOP, agregando mais valor à expressão) . Ex.: fui a uma festa TOP s.; conheci uma garota TOP s.

agulhagem: substantivo feminino – qualidade, estilo de vida ou ação própria de agulha; designativo daquele que toma atitudes que podem ser negativas (mais utilizado) ou positivas (menos utilizado), conforme o contexto da ação (muito usado seguido do adjetivo “total”, normalmente, como expressão dita após a narrativa de uma ação executada pelo próprio indivíduo ou por outrem). Ex.: bati o carro no meio-fio. A. total!; aquele samba novo que fiz é uma TOP a.

-cê: sufixo – utilizado para modificar a palavra, de modo a transformá-la num estado. Ex.: frita; trabalha; degusta.

jonhado culete: trocadilho, forma “distorcida” de jolete cunhado.

jolete: substantivo masculino – qualquer ser concreto, conhecido por meio da experiência, que possui uma unidade de caracteres e forma um todo reconhecível (isto é, indivíduo), mas que possui uma característica negativa qualquer (ou seja, todos os humanos do sexo masculino). Ex.: o j. “chegou” na menina; o cara é um j. qualquer.

rachação: substantivo feminino – ato ou efeito de “rachar” (rir); prazer, êxtase, conjunto de sensações alcançadas com o uso de riso. Ex.: ontem, a festa foi uma r.; aquele dia, no bar, foi uma r. total.

(Publicado originalmente às 19h12 de 6/4/2005, em http://marcosarthur.blogspot.com.)

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A publicação original teve um comentário, reproduzido abaixo.

1 Comments:

At 28/4/06 16:08, Anonymous Marcinha said…

Preciosidade… Essa é a palavra prá definir o que esses amigos representam e o que eles proporcionam…
Esse dia Top soci mora na minha memória… As idiossincrasias de cada um deles transformam qualquer agulhagem do dia a dia num top aproveitacê, que mais tarde será transformado em coisa boa de se ler pelos mesmos artistas…
INSUBSTITUÍVEIS!!! AMADÍSSIMOS!!!


Alfarrábios (I)

Revirar o baú e encontrar lembranças é algo que costumo fazer com alguma frequência. Às vezes, isso me faz nostálgico; às vezes, apenas traz uma saudade agradável dos tempos de outrora. Mas todas as lembranças que trago certamente revelam um pouco do que já vi, senti e vivi; ou simplesmente do que pensei. Por isso, publico aqui o primeiro texto de uma série que deverá se repetir de tempos em tempos.

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… Ente…

Parva mente
mente
desmente
criminosamente
sob o árido Condão
de espíritos aflitos
a relegar seus Dotes
a trotes
aos seres
que habitam
o Olvido

Seca mente
sente
ressente
displicentemente
ao mórbido Som
de címbalos envelhecidos
entregando seus Motes
em lotes
aos vates
que sondam
o Ruído

Inquieta mente
crente
descrente…

Em látego
a Carne
em trôpego
o Vão
senão
em Sombra
desperto
a Veste
agreste
Eflúvio celeste
dos dias
que infinitam…

(Publicado originalmente à 0h20 de 13/10/2005, em http://sorve.blogspot.com.)


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