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Alfarrábios (XII)

O alfarrábio da noite é reservado à nossa constante. É como aquela história de Heráclito (de Éfeso) sobre o rio e o homem. E não mais que mais uma inquietude.

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Inquietude VIII (Transformação)

Belo Horizonte, 3 de abril de 2005 (domingo) – 14:08

Processo ou estado? Prefiro encarar como a eterna busca pelo novo, mesmo que não necessariamente melhor. Sendo assim, mudar seria, ao mesmo tempo, processo e estado, já que acontece ao longo de algo que aprendemos a denominar tempo, mas também é permanente, constante.

Volto a citar Ferreira Gullar: “Lá vai o trem sem destino. Pro dia novo encontrar.” Seria o “dia novo” resultado do dia anterior? Ou simplesmente um amanhã coberto de rotina, com detalhes imperceptivelmente diferentes, mas inegavelmente existentes?

Quando ainda estudava geografia como “dever acadêmico”, aprendi que, durante o dia, a brisa sopra do mar para a terra, ocorrendo, à noite, o contrário. Às vezes, eu ficava me perguntando se a brisa surge do meio do oceano. Sim, porque senão seria complicado que ela soprasse do mar para a terra simultaneamente na costa leste sul-americana e na costa oeste da África. Deixo para os geógrafos a explicação.

Bom, mas aí, já “viajei” um pouco demais nessa filosofia que, certo, muitos considerarão barata como os ditames sofistas. Quando evoquei a imagem das ondas, foi justamente para falar um pouco mais de transformação, ainda que o efeito final seja absurdamente parecido em pontos antípodas do globo (o que não é o caso da América do Sul e da África). Só que o parecido não é igual (óbvio!). Aliás, pode ser exorbitantemente diferente se encarado sob pontos de vista não necessariamente divergentes, mas culturalmente, socialmente diversos.

De vez em quando, costumo citar Protágoras (aquele, de Abdera) em meus textos. É dele aquela frase famosa (ou nem tanto): “O homem é a medida de todas as coisas.” Com ela, o causídico procurava (e muitos ainda procuram) explicar tudo e todos, argumentando a favor daquilo que mais lhe conviesse. Se encarássemos o homem como a única medida, de fato, as transformações seriam muito mais internas do que externas, naturalmente.

Contudo, também temos a ciência. A religião. A filosofia, que me faz ficar refletindo loucamente sobre a vida e os acontecimentos, principalmente, nos momentos de transição como este que vivo agora e por que vejo passar tantos amigos. Não, não precisa dizer que todos, absolutamente todos estão em processos de transição, porque, disso, estou cansado de saber. Mas deixa eu dizer!

Então, abandonando um pouco a “baboseira filosófica”, vou me ater a coisas mais concretas. Estou certo de que Protágoras me aprovaria. Espero que Sócrates também, ainda que isso seja virtualmente impossível. Enfim, julgue como quiser.

A transformação é geralmente acompanhada de alguma dor. A renovação na Terra traz aos seres vivos o exemplo de que o mais comum é sofrer para melhorar. A fêmea do louva-a-deus, por exemplo, devora o macho durante o acasalamento. Tudo porque precisa de energia para o ato da cópula. Senão, não haverá uma nova geração.

Sacrifica-se, então, o macho, por um momento ínfimo de prazer, ou permite ele que sua carcaça já “envelhecida” dê lugar aos novos seres que vão povoar o planeta? Como não sou um louva-a-deus, não posso responder com precisão, afinal, não consigo saber o que ele está pensando (e nem sei se gostaria). Mas posso imaginar.

Estamos todos, sim, nos transformando, meus amigos, mas acredito que o nível de dor e o resultado de tal seja mais parte de nossas próprias concepções do que precisamente do mundo que ousamos chamar de “lar”. Resta-nos, dessa forma, escolher em definitivo e não temer as consequências. Porque o erro é iminente e inevitável. Todavia, a autopiedade, o sentimento de culpa, o sofrimento exacerbado, não passam de mazelas que criamos para nós mesmos.

Se tudo nos fosse concedido de “mão beijada”, por certo, continuaríamos reclamando. “Pesquisa recente revelou que personagens felizes não dão retorno de audiência em novelas.” Então, uma mãe de família exemplar, com um casamento quase perfeito e lindos filhos teve de perder um seio em razão do câncer de mama. Tudo pela avidez dos telespectadores em ver a desgraça alheia, em chorar com isso, em desejar que acontecimentos como esse estejam muito, muito distantes de si e de seus amados?

Recorrendo aos bons e velhos chavões (ou à “sabedoria popular”, como preferirem), o vídeo imita a vida. Se não fosse por isso, os homens não teriam tantas idéias que chocassem, revoltassem ou emocionassem em livros, filmes, pinturas. Você já leu O amante de Lady Chatterley?

Transformar-se é parte integrante da humanidade. Simplesmente porque, como tudo, absolutamente, nada é capaz de permanecer estático, mas, sim, extático.

Aos amigos que, como eu, têm lutado tanto pela mudança salutar do mundo e de si mesmos.
03/04/2005 – 14:45

(Publicado originalmente às 20h27 de 03/04/2005, em http://marcosarthur.blogspot.com.)


Quarto pensamento do dia

Para que a mudança em massa aconteça, alguns têm de ir primeiro.


Pensamento do dia

Aqueles que mudaram o mundo não o fizeram agradando a todos.


Pensamento do dia

A mudança começa na vontade e se efetiva na ação.


Pensamento do dia

Eu não posso mudar o mundo, mas nós podemos.


Terceiro pensamento do dia

Invariavelmente, o fim é consequência da mudança.


Pensamento do dia

A vontade é o motor da mudança.


Alfarrábios (V)

Seguindo com a proposta de resgatar alguns textos antigos, a partir desta semana, reedito uma série que desenvolvi entre 2004 e 2005 e que traz à tona uma das minhas mais marcantes características: a inquietação. Intitulada simplesmente “Inquietude”, essa série evoca momentos diversos de reflexão sobre a vida, o mundo e a humanidade. Nem tudo o que penso continua necessariamente igual, mas é no mínimo interessante (principalmente para mim mesmo) lembrar como pensei nesses diversos momentos. Deixarei que os posts falem por si só. Conservo a proposta de manter os textos originais, apenas adaptando a ortografia.

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Inquietude I

Hoje é mais uma segunda-feira. Daqui a pouco eu, como muitos, estarei trabalhando para dar vazão aos convencionalismos que a sociedade nos impõe com tanta acidez e iniquidade. Sim, porque somos todos alguma espécie de vítima de nós mesmos. Do dito pensamento coletivo que impregna os corações e mentes daqueles que, como nós, vivem no espaço que ousamos chamar “mundo”. Devo eu sucumbir aos mesmos detalhes de sempre, às mesmas migalhas de pão e circo que a todos agradam na mesma proporção que o espírito anseia por falsas liberdades?

Não, não tenho como responder a tal pergunta, simplesmente porque também sou um deles. Um de vocês. Um de nós. Nós, os mesmos que fazemos do mundo, da vida, o que foram ontem. O que são hoje. E o que serão amanhã. O que se faz intitular “era da informação” ou da “tecnologia”. A mesma criada em benefício da humanidade e do conforto vulgar. As mesmas que nos tornam escravos do convencionalismo cristão ou pagão.

Porque ser cristão ou pagão, hoje, significa muito mais do que aderir ou seguir preceitos religiosos, morais ou indecentemente sociais. Não me atrevo a dizer o que significam. Provavelmente, se os definisse, criaria mais algum tipo de dogma ou convenção. Ou, quem sabe, um “novo” conceito, revolucionário, baseado no que já foi pensado e repensado, dito e redito, mas sob uma “nova” forma, uma forma em que todos passariam a acreditar. Ou que rejeitariam de acordo com o momento, a vigência, as atitudes da turba inconsequente e fria que se ousou chamar humanidade.

Porque dizer “errar é humano” tornou-se belo, mas não foi absorvido na plena acepção do, como disse muitas vezes meu pai, “ditado popular idiota”. É belo não ter preconceitos, é belo não ser politicamente incorreto. Pergunto a você, desinteressado: “És correto? És puro? És inacreditavelmente belo e perfeito?” “Quem não tiver pecado, atire a primeira pedra”, diria o sábio.

Porque julgamos, o tempo todo, julgamos, e pensamos, e repensamos, e formulamos opiniões baseadas em conceitos sociais enraizados. Antigos, disfarçados de modernos, novos, cheios de propósitos. Porém, estejamos onde quer que seja, durante muitos momentos da vida, nos sentiremos ansiosos, medíocres, convencionalistas? Ou seremos o resultado do que realmente pensamos sobre nós e sobre os outros?

Acredito eu que nem um, nem outro. Viveremos eternamente a busca. A procura. Continuaremos fazendo o que temos de fazer, cumprindo o que temos de cumprir. Vivendo conforme gira o mundo e, de vez em quando (apenas de vez em quando), quebrando as convenções. E, em surgindo um sábio que as quebre de tal forma que todos tomem consciência, restarão as opções mais simples: criar novas convenções ou seguir o exemplo.

Porque, seja como for, quando formos inteligentes, continuaremos a busca e acreditaremos de verdade na mudança. E mudaremos sem receio, sem medo, sem autodestruição. Contudo, enquanto isso não acontecer, não passaremos de almas medíocres. Medíocres, planas e inquietas.

Belo Horizonte, 13 de dezembro de 2004 – 01:44.

(Publicado originalmente às 13h48 de 13/12/2004, em http://marcosarthur.blogspot.com.)


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