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Alfarrábios (IX)

E como esta última quinzena está pobre de posts, deixo mais uma inquietude para você refletir.

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Inquietude V (Contradição) 

Belo Horizonte, 26 de março de 2005 (domingo) – 15:38

Ao mesmo tempo em que um turbilhão de coisas assola a minha mente, incitando-me à escrita, por (muitas) vezes, tenho dificuldades em começar. Em desenvolver. Em concluir. Então, procuro simplesmente fazer e, no final, deixar que avaliem o resultado.

Frequentemente, tenho me lembrado daquela fábula de La FontaineO velho, o menino e a mulinha, cuja riqueza conheci numa versão de Monteiro Lobato. Vou reproduzi-la, para que o leitor melhor me compreenda:

O velho, o menino e a mulinha

O velho chamou o filho e disse:

– Vá ao pasto, pegue a bestinha ruana e apronte-se para irmos à cidade, que quero vendê-la.

O menino foi e trouxe a mula. Passou-lhe a raspadeira, escovou-a e partiram os dois a pé, puxando-a pelo cabresto. Queriam que ela chegasse descansada para melhor impressionar os compradores.

De repente,

– Esta é boa! Exclamou um viajante ao avistá-los. O animal vazio e o pobre velho a pé! Que despropósito! Será promessa, penitência ou caduquice?

E lá se foi, a rir.

O velho achou que o viajante tinha razão e ordenou ao menino:

– Puxa a mula, meu filho. Eu vou montado e assim tapo a boca do mundo.

Tapar a boca do mundo, que bobagem! O velho compreendeu isso logo adiante, ao passar por um bando de lavadeiras ocupadas em bater roupa num córrego.

– Que graça! – exclamaram elas. O marmanjão montado com todo o sossego e o pobre menino a pé… Há cada pai malvado por este mundo de Cristo… Credo!…

O velho danou e, sem dizer palavra, fez sinal ao filho para que subisse à garupa.

– Quero só ver o que dizem agora…

Viu logo. O Izé Biriba, estafeta do correio, cruzou com eles e exclamou:

– Que idiotas! Querem vender o animal e montam os dois de uma vez… Assim, meu velho, o que chega à cidade não é mais a mulinha; é a sombra da mulinha…

– Ele tem razão, meu filho, precisamos não judiar do animal. Eu apeio e você, que é levezinho, vai montado.

Assim fizeram, e caminharam em paz um quilômetro, até o encontro dum sujeito que tirou o chapéu e saudou o pequeno respeitosamente:

– Bom dia, príncipe!

– Por que, príncipe? – indagou o menino.

– É boa! Porque só príncipes andam assim de lacaio à rédea…

– Lacaio, eu? – esbravejou o velho. Que desaforo! Desce, desce, meu filho e carreguemos o burro às costas. Talvez isto contente o mundo…

Nem assim. Um grupo de rapazes, vendo a estranha cavalgada, acudiu em tumulto, com vaias:

– Hu! Hu! Olha a trempe de três burros, dois de dois pés e um de quatro! Resta saber qual dos três é o mais burro…

– Sou eu! Replicou o velho, arriando a carga. Sou eu, porque venho há uma hora fazendo não o que quero mas o que quer o mundo. Daqui em diante, porém, farei o que me manda a consciência, pouco me importando que o mundo concorde ou não. Já vi que morre doido quem procura contentar toda gente…

(LOBATO, Monteiro. Fábulas. Histórias de Tia Nastácia. Histórias Diversas. Editora Brasiliense. São Paulo, 1973)

A fábula, por si só, com toda a genialidade daqueles que a escreveram e aplicaram em suas experiências de vida, já valeria o título desta humilde reflexão. Porém, inquieto como sou, prefiro prosseguir. Aliás, outorgando a mim mesmo a permissão para generalizar, é impressionante como não nos contentamos quase nunca. Sempre há algo faltando, ou sobrando. Vontade de ir e de ficar. Eu diria mesmo que a luz e as trevas, em vários momentos da vida, nos atraem com igual intensidade. O animal e o humano brigam dentro de nós como se fôssemos uns e outros, diferentes criaturas habitando um mesmo coração. Um mesmo cérebro. Afinal, não é o homem “animal racional”?

Das maiores contradições que temos, por exemplo, é a capacidade de desdenhar a conquista. A vontade de superar os limites é sempre mais importante do que alcançar qualquer dádiva, por mais maravilhosa que seja. A realização está sempre aquém do que queremos depois. O reconhecimento nos insufla o orgulho, é verdade, mas estamos sempre desejando mais. Seria para nos orgulharmos a tal ponto que os outros se tornassem, para nós, apenas centelhas insignificantes de vida, submissas à nossa vontade? (Lembrando que Leonardo Boff foi excomungado pela Igreja Católica, entre outras coisas, porque disse que o homem havia criado Deus, e não o contrário.)

É quase pitoresco como em nossas vidas medíocres vamos tentando fazer com que os nossos “semelhantes” nos concedam os louros da vitória, a cada novo passo. Quando os nossos “iguais” não agem da forma como gostaríamos, decepção. Então, os diminuímos, tornando-os criaturas inferiores e sem importância, relegando partes daquele mesmo ser que outrora admirávamos tanto, ao ostracismo. Mas, se são nossos iguais, porque insistimos em dizer que somos indivíduos? Porque temos diferentes impressões digitais? Arcadas dentárias? Íris? Mapas genéticos? Fluidos extrassensoriais?

Ah, pequenas centelhas de vida subordinadas ao próprio egoísmo! Somos iguais, semelhantes, de fato, porque é impressionante como conseguimos agir todos com os mesmos defeitos, as mesmas qualidades, variando, em cada um, apenas a intensidade com que surgem em nossos íntimos. E a intensidade com a qual os externamos, porque se tem algo que nos inibe (e não adianta dizer que não), é o controle. Da família. Dos amigos. Da sociedade.

Errou, punido será. Mas o ser humano é tão controvertido que sequer uma regra simples é aplicada de fato, porque a fórmula comportamental de causa e efeito está longe de ser uma regra, pelo menos do ponto de vista míope, hipermetrope e astigmático do homem. Porque não importa a distância, sempre enxergamos algo a mais. Ou a menos. E sempre há elementos que simplesmente não vemos. Então, vale o consenso. Porque nem mesmo as provas do mundo são capazes de mudar a natureza humana. Concorde. Discorde. E que nos reste, por fim, a consciência.

26/03/2005 – 16:26

(Publicado originalmente às 17h59 de 27/03/2005, em http://marcosarthur.blogspot.com.)

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