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Alfarrábios (XIV)

Sobre algumas coisas não se pode escrever. Apenas tentar.

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Inquietude X (Inefabilidade)

Belo Horizonte, 25 de janeiro de 2007 (quinta-feira) – 20:42

Vinte e dois minutos e trinta e oito segundos. Menos do que a metade, pouco mais do que um terço de hora. Não, o suposto título alternativo não encerra, em si, uma contradição do que correm nestas linhas… Linhas… Linhas… Ouvia os dedos a correrem pelas notas da guitarra. Eu, das cordas que desindependentes da minha limitada audição soavam no contratempo da luz azul que adentrava, intermitente, a fresta da fresta da outra janela. E da fumaça que envolvia os pulmões, o rosto, a sala, deixando seu rastro de olores lascivos. Uma espécie de autorretrato políguo do instante em que a porta se abriu e as poucas – e rápidas – palavras conotavam a ansiedade do silêncio absoluto e do não menos pretensioso desejo da escuridão total. “Não vai comer nada não?, Agora não, daqui a pouco.” Bestializado, sem necessidades fisiológicas que, de fato, premiam, no âmbito racional. Apenas a vontade autofágica de sensações e despertares de ocultos ou temidos estares experienciáveis ou não. O compasso, a retidão primitiva, a gênese do indescritível… Indescritível… Indescritível… Escadaria abaixo. Porta. Gotas brotando do chão, cada vez mais velozes. Fogos-fátuos derramando-se por sobre. Porta. Elevador. Porta. Palavras. Clausura. Despido. Nu. Nu. Nu. Servil, um tanto. Inefável. Depois da aula de bolero, Bolèro. Vinte e dois minutos e trinta e oito segundos.

25/01/2007 – 21:07

(Publicado originalmente às 21h17 de 25/01/2007, em http://marcosarthur.blogspot.com.)

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