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Sombras do Velho Mundo

A crise não só bateu às portas da Europa como já está com os dois pés lá dentro. Isso todo o mundo já sabe. Naturalmente, o fato vem suscitando uma série de ações com o objetivo de reerguer – além da economia – o moral dos habitantes da União Europeia, talvez no momento mais frágil por que esteja passando desde a sua criação, após a II Guerra Mundial. E aí vêm as medidas protecionistas, o recrudescimento da política de imigração (e mesmo da entrada de turistas em alguns países) e, como se isso não bastasse, um retorno infundado da xenofobia. Resultado do medo?

Não sei se o leitor teve a oportunidade de ver a publicidade da UE veiculada há alguns dias. Se não, vai uma boa oportunidade:

Para quem não leu o descritivo do vídeo ou os comentários (ou notícias relacionadas à questão), o comercial foi retirado do ar após uma onda de protestos que o acusavam de racismo. A União Europeia nega, dizendo que – absolutamente – essa não foi a intenção.

Eu tenho uma tendência a acreditar nisso. De fato, eu duvido que os arquitetos da propaganda veiculada tenham deliberadamente pensado: “Vamos colocar no ar um comercial que faça apologia à segregação.” Mas aí é inevitável pensar: “Ora, mas entre um sem número de indivíduos inteligentes e poderosos, articuladores de grandes ideias, responsáveis pela união de povos, como é que permitiram a aprovação de uma proposta de tal teor?” Lanço três hipóteses: 1) ou esses indivíduos não são tão inteligentes assim; 2) ou alguém decidiu “jogar verde” e, “se colar, colou”; 3) ou trata-se de um mistério completo e ninguém realmente teve discernimento para avaliar as entrelinhas.

Pessoal, vamos falar sério. Estamos numa era em que nunca se questionou tanto a Prisão de Guantânamo, a presença das tropas estadunidenses no Afeganistão e no Iraque, as ditaduras no Egito, Irã e Síria… só para citar alguns exemplos de atrocidades. Também nunca teve um alcance tão abrangente a solidariedade mundial em relação a tragédias como o 11 de Setembro, o tsunami no sul da Ásia ou os terremotos no Chile e no Japão (este último tendo causado o desastre na usina nuclear de Fukushima).

Apesar das adversidades – e rivalidades – o mundo bem ou mal tem procurado se unir em momentos de crise, de modo que a globalização vem deixando cada vez mais de ser apenas um fenômeno econômico e cultural para se tornar um símbolo da queda de fronteiras – ou assim gostaríamos (nem todos, va bene) que fosse.

Lá vão vir os críticos dizerem que estou sendo romântico de novo. E que talvez tenha pegado um pouco pesado ao comparar tragédias com uma inocente publicidade infeliz veiculada com o intuito original de promover a união. Aliás, a UE carrega esse símbolo e essa proposta até mesmo em seu nome, a despeito das disputas internas e discordâncias entre os países membros. Mas, ainda que por interesses econômicos, estão tentando salvar a Grécia. Porém, vale lembrar que conflitos inomináveis começaram com uma simples difusão de ideias estranhas.

Enquanto isso, países como China, Índia e Brasil, em sua ascensão econômica – bastante desproporcional ao desenvolvimento social, tenho de falar – emergem como ameaças à supremacia do Velho Mundo? (Tá bom, China e Índia também são o Velho Mundo, mas deixo a força da expressão.) Quem minimamente acompanha o noticiário há de concordar que o crescimento desses três países – e de outros que ainda hão de despontar – vem trazendo benefícios econômicos para o mundo em geral. Então, por que a segregação ainda tão presente nos corações e mentes de tantos que deveriam conduzir o mundo à supremacia da verdadeira humanidade?

Mesmo os Estados Unidos, com toda a sua empáfia isoladora, vêm sendo obrigados a se curvar diante do fato de que os povos que lá fazem turismo – e que muitas vezes são humilhados gratuitamente para conseguir um visto – estão salvando a economia americana. Você sabia, por exemplo, que a Flórida quer reduzir as exigências para os vistos dos brasileiros depois de descobrir que os turistas tupiniquins trouxeram aproximadamente US$ 1 bilhão aos cofres do estado norteamericano em 2010? Por outro lado, países como Portugal e Espanha parecem fazer questão de nos manter afastados. A situação ficou tão crítica que o Brasil se viu obrigado a adotar a reciprocidade em relação aos espanhóis.

É, parece que o medo tem mesmo tirado o sono de alguns dos nossos irmãos do Velho Mundo. Mas com uma coisa daquela fatídica publicidade que originou esse texto quase panfletário, sou obrigado a concordar: “Quantos mais somos, mais fortes.” Pena que esse slogan não tenha sido usado em alusão à humanidade inteira.


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