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Alfarrábios (VI)

Conforme prometido, reedito o “Inquietude” da semana. Neste, além da adequação ortográfica, tomei a liberdade de acrescentar os links ao final, para que a dedicatória não deixe dúvidas. Boa leitura.

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Inquietude II (Celebração)

Belo Horizonte, 15 de dezembro de 2004 – 02:46

Frequentemente, receio pelo dia de amanhã. Muitas vezes, quando isso acontece, já me esqueci de que amanhã é hoje. Voltar à mesma rotina de sempre, cumprir obrigações, caminhar conforme ditam as regras e os valores sociais. Afinal, não posso sair da linha. Não posso quebrar tabus, tampouco ousar naquilo que faço. Porque isso seria revolucionário demais.

Às vezes, isso chega ao ponto de revoltar-me. Incomodar-me de tal modo que não sei como colocar para fora essa energia criativa (ou seria destrutiva?) a favor de meus instintos mais primitivos ou da razão mais sensata.

De fato, ignoro as consequências dos acontecimentos caso eu resolvesse mudar radicalmente e simplesmente “virar o disco”, tornar as coisas mais fáceis, tratar a vida com mais simplicidade. E as pessoas, com mais tolerância. Afinal, são tão ignorantes quanto eu. De qualquer forma, também não sei do futuro caso decidisse seguir como sentenciam os ditames.

Em momentos como esse, torno-me ainda mais crítico, ferozmente inclinado a mudar todas as coisas de lugar. A gritar onde é necessário o silêncio. A parar onde é necessário correr. Porque correr é um dos convencionalismos mais chatos desses últimos tempos. “O dia já acabou e não fiz metade do que precisava”, é o que dizemos e ouvimos incessantemente. Quando ouço, tenho costumado dizer: “É essa velha mania do tempo de passar sem avisar”.

Isso é uma forma de justificar o quanto estamos desperdiçando de nós mesmos. Sim, porque se não conseguimos fazer o que devemos ou que precisamos, pode isso estar certo? Preferimos não perceber (ou não admitir) e ir “tocando em frente”, contrariamente àquela canção que diz: “Ando devagar, porque já tive pressa…”.

E vamos voando sem ter asas. Porque se tivéssemos asas inventaríamos um meio de seguir ainda mais rápido. Talvez, desejássemos *~#ar. Não é isso que a humanidade tem feito desde o início dos tempos? Inventando meios de produzir, acrescer, sem que isso traga algo verdadeiramente bom?

De repente, resolvo parar. Nem que seja por breves instantes. Olho ao meu redor, encontro algo insubstituível que me faz retomar a coragem e deixar aquele “receio do dia seguinte” um pouco de lado, torcendo para que as horas passem até que outro momento como aquele retorne e, mais uma vez, me permita enxergar o quanto sou feliz.

Por vezes, passo momentos tão belos, que de efêmeros tornam-se eternos. Porque descobri um tesouro que a todos faz sorrir e desejar viver e viver ainda mais. É um bálsamo que invade a alma, impulsionando cada ação para o momento seguinte, num círculo virtuoso que não termina simplesmente porque é um círculo.

De um lado, um. Do outro lado, outro. Estou cercado. Não posso sequer pensar em me deslocar sem pedir licença, porque, se o fizesse, seria certamente menos afortunado. Estou irremediavelmente ligado às relações que me fazem pensar que, além das convenções, existe o respeito. O carinho. A sinceridade. O perdão. A compreensão. O entendimento. O verdadeiro amor sem que seja preciso esboçar uma única palavra. Nesses momentos, agradeço a Deus por me ter permitido conhecer a amizade.

Vida longa aos amigos, que me permitem saber o verdadeiro valor da vida.
Vida eterna aos queridos Bruno, Fernando, Mara e Marina, inspirações divinas do meu humilde saber.

15/12/2004 – 03:19

(Publicado originalmente às 10h51 de 15/12/2004, em http://marcosarthur.blogspot.com.)


Alfarrábios (V)

Seguindo com a proposta de resgatar alguns textos antigos, a partir desta semana, reedito uma série que desenvolvi entre 2004 e 2005 e que traz à tona uma das minhas mais marcantes características: a inquietação. Intitulada simplesmente “Inquietude”, essa série evoca momentos diversos de reflexão sobre a vida, o mundo e a humanidade. Nem tudo o que penso continua necessariamente igual, mas é no mínimo interessante (principalmente para mim mesmo) lembrar como pensei nesses diversos momentos. Deixarei que os posts falem por si só. Conservo a proposta de manter os textos originais, apenas adaptando a ortografia.

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Inquietude I

Hoje é mais uma segunda-feira. Daqui a pouco eu, como muitos, estarei trabalhando para dar vazão aos convencionalismos que a sociedade nos impõe com tanta acidez e iniquidade. Sim, porque somos todos alguma espécie de vítima de nós mesmos. Do dito pensamento coletivo que impregna os corações e mentes daqueles que, como nós, vivem no espaço que ousamos chamar “mundo”. Devo eu sucumbir aos mesmos detalhes de sempre, às mesmas migalhas de pão e circo que a todos agradam na mesma proporção que o espírito anseia por falsas liberdades?

Não, não tenho como responder a tal pergunta, simplesmente porque também sou um deles. Um de vocês. Um de nós. Nós, os mesmos que fazemos do mundo, da vida, o que foram ontem. O que são hoje. E o que serão amanhã. O que se faz intitular “era da informação” ou da “tecnologia”. A mesma criada em benefício da humanidade e do conforto vulgar. As mesmas que nos tornam escravos do convencionalismo cristão ou pagão.

Porque ser cristão ou pagão, hoje, significa muito mais do que aderir ou seguir preceitos religiosos, morais ou indecentemente sociais. Não me atrevo a dizer o que significam. Provavelmente, se os definisse, criaria mais algum tipo de dogma ou convenção. Ou, quem sabe, um “novo” conceito, revolucionário, baseado no que já foi pensado e repensado, dito e redito, mas sob uma “nova” forma, uma forma em que todos passariam a acreditar. Ou que rejeitariam de acordo com o momento, a vigência, as atitudes da turba inconsequente e fria que se ousou chamar humanidade.

Porque dizer “errar é humano” tornou-se belo, mas não foi absorvido na plena acepção do, como disse muitas vezes meu pai, “ditado popular idiota”. É belo não ter preconceitos, é belo não ser politicamente incorreto. Pergunto a você, desinteressado: “És correto? És puro? És inacreditavelmente belo e perfeito?” “Quem não tiver pecado, atire a primeira pedra”, diria o sábio.

Porque julgamos, o tempo todo, julgamos, e pensamos, e repensamos, e formulamos opiniões baseadas em conceitos sociais enraizados. Antigos, disfarçados de modernos, novos, cheios de propósitos. Porém, estejamos onde quer que seja, durante muitos momentos da vida, nos sentiremos ansiosos, medíocres, convencionalistas? Ou seremos o resultado do que realmente pensamos sobre nós e sobre os outros?

Acredito eu que nem um, nem outro. Viveremos eternamente a busca. A procura. Continuaremos fazendo o que temos de fazer, cumprindo o que temos de cumprir. Vivendo conforme gira o mundo e, de vez em quando (apenas de vez em quando), quebrando as convenções. E, em surgindo um sábio que as quebre de tal forma que todos tomem consciência, restarão as opções mais simples: criar novas convenções ou seguir o exemplo.

Porque, seja como for, quando formos inteligentes, continuaremos a busca e acreditaremos de verdade na mudança. E mudaremos sem receio, sem medo, sem autodestruição. Contudo, enquanto isso não acontecer, não passaremos de almas medíocres. Medíocres, planas e inquietas.

Belo Horizonte, 13 de dezembro de 2004 – 01:44.

(Publicado originalmente às 13h48 de 13/12/2004, em http://marcosarthur.blogspot.com.)


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