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Alfarrábios (XI)

E hoje, a inquietude segue um pouco ácida. Pra refletir.

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Inquietude VII (Vício)

Belo Horizonte, 30 de março de 2005 (terça-feira) – 02:25

Esse é pra você mesmo, seu merda de ser humano que acredita saber algo da vida. Está no “topo da cadeia alimentar”. Porém, se um simples pensamento te incomoda, nada mais broxante. É como se a própria vida se voltasse contra você e fizesse de suas concepções nada mais do que a pura demência.

Crítico, eu? De jeito nenhum. É que você está acostumado a ver e a ouvir muito menos do que é capaz de sentir. Porque o sentimento faz de você medíocre, no máximo, quando não te joga simplesmente no buraco da imbecilidade completa.

Não, não estou exagerando. Apenas descrevendo um daqueles momentos em que você, na sua contradição ridícula, se julga melhor (ou pior) do que os outros. Simplesmente para aparecer… na presença dos outros. Ou na ausência de alguém que te elogie.

Ilusão? Pouca. Está completamente ilhado de sua racionalidade, porque a divide do instinto como se não fosse um animal. Pobre ser! De sua abjeta “magnitude”, acredita ser o único, a criatura capaz não apenas de conter, mas de curar os males do mundo. Já pensou se o restante dos homens refletisse como você?

A facilidade das explicações que insiste em conceder a si mesmo está longe, muito longe de ser a centelha da “mais pequena” verdade. Em sua carência infinitesimal de indivíduo pensante, não sabe sequer conservar o que há de bom e a você faz bem.

Parafraseando-me: sua perfeição me ofusca. Torna-me um ser insignificante e improfícuo. Absolutamente inerte e sem qualquer importância que valha consideração. Afinal, de que serve o lixo senão para ser jogado aos abutres?

Faço exatamente o que condeno. Julgo. Não para mandar os homens ao cadafalso, mas para revoltá-los a ponto de sentirem raiva de mim (?!) ou provocarem, em si mesmos, mudanças significativas.

Arrogante, eu? Ora, de onde você tirou essa premissa tão falaciosa? Silogismos à parte, sua lógica não me prende aos convencionalismos da senda comum. Puro sofisma. Desejo, sim, ser admirado e irremediavelmente belo.

Então, que sejam destruídos os demais. Que se extinga a humanidade para que eu reine, absoluto, sobre os corpos moribundos daqueles que tentaram (e ainda tentam) contrariar a minha vontade. Seja eu o único ser “dominante” sobre a terra, a serra, o mar. Correndo entre as estrelas a voar. No ar. No ar.

Que toda visão seja turva. A música, histrião. O gosto, amargo. O cheiro, acre. O toque, lancinante. Porque você merece a cegueira. A surdez. A insipidez. A “inolência”. A intactibilidade. E, acima de tudo, a insensibilidade.

30/03/2005 – 03:09

(Publicado originalmente às 14h51 de 30/03/2005, em http://marcosarthur.blogspot.com.)


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