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Pensamento do dia

A vida quase sempre é um amontoado de clichês. Mas o maior deles é que não há nada mais importante do que as pessoas que amamos. (Para Ana Maria Faria e Jair Corgozinho.)


Pensamento do dia

A inquietação tem o mesmo poder para criar e destruir.


Alfarrábios (XIV)

Sobre algumas coisas não se pode escrever. Apenas tentar.

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Inquietude X (Inefabilidade)

Belo Horizonte, 25 de janeiro de 2007 (quinta-feira) – 20:42

Vinte e dois minutos e trinta e oito segundos. Menos do que a metade, pouco mais do que um terço de hora. Não, o suposto título alternativo não encerra, em si, uma contradição do que correm nestas linhas… Linhas… Linhas… Ouvia os dedos a correrem pelas notas da guitarra. Eu, das cordas que desindependentes da minha limitada audição soavam no contratempo da luz azul que adentrava, intermitente, a fresta da fresta da outra janela. E da fumaça que envolvia os pulmões, o rosto, a sala, deixando seu rastro de olores lascivos. Uma espécie de autorretrato políguo do instante em que a porta se abriu e as poucas – e rápidas – palavras conotavam a ansiedade do silêncio absoluto e do não menos pretensioso desejo da escuridão total. “Não vai comer nada não?, Agora não, daqui a pouco.” Bestializado, sem necessidades fisiológicas que, de fato, premiam, no âmbito racional. Apenas a vontade autofágica de sensações e despertares de ocultos ou temidos estares experienciáveis ou não. O compasso, a retidão primitiva, a gênese do indescritível… Indescritível… Indescritível… Escadaria abaixo. Porta. Gotas brotando do chão, cada vez mais velozes. Fogos-fátuos derramando-se por sobre. Porta. Elevador. Porta. Palavras. Clausura. Despido. Nu. Nu. Nu. Servil, um tanto. Inefável. Depois da aula de bolero, Bolèro. Vinte e dois minutos e trinta e oito segundos.

25/01/2007 – 21:07

(Publicado originalmente às 21h17 de 25/01/2007, em http://marcosarthur.blogspot.com.)

Alfarrábios (XIII)

Sem mais.

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Inquietude IX (Borbotão)

Belo Horizonte, 9 de novembro de 2005 (quarta-feira) – 01:35

Estou, mais uma vez, às voltas com a ávida inquietude.

É excruciante como as coisas podem ser ao mesmo tempo boas e ruins e pálidas em nossa rotina sufocante de um instante após o outro que se apropria dos pequenos prazeres fúteis e extáticos porque o gozo precede o fim da plenitude fugaz alcançada ao custo de minúsculas pendências verídicas que não passam de ilusões pérfidas da construção de um futuro gélido acreditado ditoso por todos aqueles que compactuam com a morbidez “transgênica” concomitante ao atavismo louco de desejos nada instintivos mas impostos pela milenar tradição de fazer um certo e outro acerto sem esquecer da pontualidade exigida para cada novo fim aliás começo disfarçado de objetivo meta alcance precedido por planos disciplina bestial qual aquela da matilha que cede ao líder as fêmeas escolhidas por simples autoafirmação do privilégio sobre o fraco até que este o desafie e vença ocupando o lugar anteriormente cobiçado mas desprezado em razão do desdém pelo que se quer comprar qual forma de temor disfarçado de respeito agora conquistado em batalha de morte vislumbrada a possibilidade de sobrepujar o opressor ditador ocupando e fazendo o dantes questionado já que diferente se torna o varão mais viril escrotal tal a fé no poder precedente querer outorgado julgado mérito próprio e exclusivo não possuído de fato mas biblificado pelo costume de ser não mas se não transformado em apoio decente vitória da mente encalhada em contradições congênitas e precursoras da própria existência inútil por vezes descartável da vontade de ser não apenas estar um momento limite tênue porém verossímil da parca e medíocre vida que chamamos enraivecidos envaidecidos nossa.

09/11/2005 – 02:01

(Publicado originalmente às 12h59 de 09/11/2005, em http://marcosarthur.blogspot.com.)

Alfarrábios (XII)

O alfarrábio da noite é reservado à nossa constante. É como aquela história de Heráclito (de Éfeso) sobre o rio e o homem. E não mais que mais uma inquietude.

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Inquietude VIII (Transformação)

Belo Horizonte, 3 de abril de 2005 (domingo) – 14:08

Processo ou estado? Prefiro encarar como a eterna busca pelo novo, mesmo que não necessariamente melhor. Sendo assim, mudar seria, ao mesmo tempo, processo e estado, já que acontece ao longo de algo que aprendemos a denominar tempo, mas também é permanente, constante.

Volto a citar Ferreira Gullar: “Lá vai o trem sem destino. Pro dia novo encontrar.” Seria o “dia novo” resultado do dia anterior? Ou simplesmente um amanhã coberto de rotina, com detalhes imperceptivelmente diferentes, mas inegavelmente existentes?

Quando ainda estudava geografia como “dever acadêmico”, aprendi que, durante o dia, a brisa sopra do mar para a terra, ocorrendo, à noite, o contrário. Às vezes, eu ficava me perguntando se a brisa surge do meio do oceano. Sim, porque senão seria complicado que ela soprasse do mar para a terra simultaneamente na costa leste sul-americana e na costa oeste da África. Deixo para os geógrafos a explicação.

Bom, mas aí, já “viajei” um pouco demais nessa filosofia que, certo, muitos considerarão barata como os ditames sofistas. Quando evoquei a imagem das ondas, foi justamente para falar um pouco mais de transformação, ainda que o efeito final seja absurdamente parecido em pontos antípodas do globo (o que não é o caso da América do Sul e da África). Só que o parecido não é igual (óbvio!). Aliás, pode ser exorbitantemente diferente se encarado sob pontos de vista não necessariamente divergentes, mas culturalmente, socialmente diversos.

De vez em quando, costumo citar Protágoras (aquele, de Abdera) em meus textos. É dele aquela frase famosa (ou nem tanto): “O homem é a medida de todas as coisas.” Com ela, o causídico procurava (e muitos ainda procuram) explicar tudo e todos, argumentando a favor daquilo que mais lhe conviesse. Se encarássemos o homem como a única medida, de fato, as transformações seriam muito mais internas do que externas, naturalmente.

Contudo, também temos a ciência. A religião. A filosofia, que me faz ficar refletindo loucamente sobre a vida e os acontecimentos, principalmente, nos momentos de transição como este que vivo agora e por que vejo passar tantos amigos. Não, não precisa dizer que todos, absolutamente todos estão em processos de transição, porque, disso, estou cansado de saber. Mas deixa eu dizer!

Então, abandonando um pouco a “baboseira filosófica”, vou me ater a coisas mais concretas. Estou certo de que Protágoras me aprovaria. Espero que Sócrates também, ainda que isso seja virtualmente impossível. Enfim, julgue como quiser.

A transformação é geralmente acompanhada de alguma dor. A renovação na Terra traz aos seres vivos o exemplo de que o mais comum é sofrer para melhorar. A fêmea do louva-a-deus, por exemplo, devora o macho durante o acasalamento. Tudo porque precisa de energia para o ato da cópula. Senão, não haverá uma nova geração.

Sacrifica-se, então, o macho, por um momento ínfimo de prazer, ou permite ele que sua carcaça já “envelhecida” dê lugar aos novos seres que vão povoar o planeta? Como não sou um louva-a-deus, não posso responder com precisão, afinal, não consigo saber o que ele está pensando (e nem sei se gostaria). Mas posso imaginar.

Estamos todos, sim, nos transformando, meus amigos, mas acredito que o nível de dor e o resultado de tal seja mais parte de nossas próprias concepções do que precisamente do mundo que ousamos chamar de “lar”. Resta-nos, dessa forma, escolher em definitivo e não temer as consequências. Porque o erro é iminente e inevitável. Todavia, a autopiedade, o sentimento de culpa, o sofrimento exacerbado, não passam de mazelas que criamos para nós mesmos.

Se tudo nos fosse concedido de “mão beijada”, por certo, continuaríamos reclamando. “Pesquisa recente revelou que personagens felizes não dão retorno de audiência em novelas.” Então, uma mãe de família exemplar, com um casamento quase perfeito e lindos filhos teve de perder um seio em razão do câncer de mama. Tudo pela avidez dos telespectadores em ver a desgraça alheia, em chorar com isso, em desejar que acontecimentos como esse estejam muito, muito distantes de si e de seus amados?

Recorrendo aos bons e velhos chavões (ou à “sabedoria popular”, como preferirem), o vídeo imita a vida. Se não fosse por isso, os homens não teriam tantas idéias que chocassem, revoltassem ou emocionassem em livros, filmes, pinturas. Você já leu O amante de Lady Chatterley?

Transformar-se é parte integrante da humanidade. Simplesmente porque, como tudo, absolutamente, nada é capaz de permanecer estático, mas, sim, extático.

Aos amigos que, como eu, têm lutado tanto pela mudança salutar do mundo e de si mesmos.
03/04/2005 – 14:45

(Publicado originalmente às 20h27 de 03/04/2005, em http://marcosarthur.blogspot.com.)


Alfarrábios (XI)

E hoje, a inquietude segue um pouco ácida. Pra refletir.

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Inquietude VII (Vício)

Belo Horizonte, 30 de março de 2005 (terça-feira) – 02:25

Esse é pra você mesmo, seu merda de ser humano que acredita saber algo da vida. Está no “topo da cadeia alimentar”. Porém, se um simples pensamento te incomoda, nada mais broxante. É como se a própria vida se voltasse contra você e fizesse de suas concepções nada mais do que a pura demência.

Crítico, eu? De jeito nenhum. É que você está acostumado a ver e a ouvir muito menos do que é capaz de sentir. Porque o sentimento faz de você medíocre, no máximo, quando não te joga simplesmente no buraco da imbecilidade completa.

Não, não estou exagerando. Apenas descrevendo um daqueles momentos em que você, na sua contradição ridícula, se julga melhor (ou pior) do que os outros. Simplesmente para aparecer… na presença dos outros. Ou na ausência de alguém que te elogie.

Ilusão? Pouca. Está completamente ilhado de sua racionalidade, porque a divide do instinto como se não fosse um animal. Pobre ser! De sua abjeta “magnitude”, acredita ser o único, a criatura capaz não apenas de conter, mas de curar os males do mundo. Já pensou se o restante dos homens refletisse como você?

A facilidade das explicações que insiste em conceder a si mesmo está longe, muito longe de ser a centelha da “mais pequena” verdade. Em sua carência infinitesimal de indivíduo pensante, não sabe sequer conservar o que há de bom e a você faz bem.

Parafraseando-me: sua perfeição me ofusca. Torna-me um ser insignificante e improfícuo. Absolutamente inerte e sem qualquer importância que valha consideração. Afinal, de que serve o lixo senão para ser jogado aos abutres?

Faço exatamente o que condeno. Julgo. Não para mandar os homens ao cadafalso, mas para revoltá-los a ponto de sentirem raiva de mim (?!) ou provocarem, em si mesmos, mudanças significativas.

Arrogante, eu? Ora, de onde você tirou essa premissa tão falaciosa? Silogismos à parte, sua lógica não me prende aos convencionalismos da senda comum. Puro sofisma. Desejo, sim, ser admirado e irremediavelmente belo.

Então, que sejam destruídos os demais. Que se extinga a humanidade para que eu reine, absoluto, sobre os corpos moribundos daqueles que tentaram (e ainda tentam) contrariar a minha vontade. Seja eu o único ser “dominante” sobre a terra, a serra, o mar. Correndo entre as estrelas a voar. No ar. No ar.

Que toda visão seja turva. A música, histrião. O gosto, amargo. O cheiro, acre. O toque, lancinante. Porque você merece a cegueira. A surdez. A insipidez. A “inolência”. A intactibilidade. E, acima de tudo, a insensibilidade.

30/03/2005 – 03:09

(Publicado originalmente às 14h51 de 30/03/2005, em http://marcosarthur.blogspot.com.)


Alfarrábios (X)

Pois é, estou devendo um monte de posts novos. É que o tempo anda curto nas últimas semanas, face a tantos acontecimentos. Aí, começo a escrever e acabo parando no meio. Então, mantendo a tradição, reedito mais um alfarrábio. Este, particularmente, é bem nostálgico. E embora hoje eu talvez mudasse um pouco o estilo do texto, fico muito feliz em tê-lo escrito, porque a essência do que foi dito ainda prevalece na minha alma.

Além da revisão costumeira, incluí os links – e o vídeo que “ilustra” a exata versão da música que eu costumava ouvir. Boa leitura!

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Inquietude VI (Infância)

Belo Horizonte, 29 de março de 2005 (terça-feira) – 16:17

Lá vai o trem com o menino
Lá vai a vida a rodar
Lá vai ciranda e destino
Cidade e noite a girar
Lá vai o trem sem destino
Pro dia novo encontrar
Correndo vai pela terra
Vai pela serra
Vai pelo mar
Cantando pela serra do luar
Correndo entre as estrelas a voar
No ar
No ar

(GULLAR, FerreiraO trenzinho do caipira)

Quando criança, eu costumava pensar que era aquele menino que ia no trem. E ficava imaginando as maravilhas que conheceria ao viajar por caminhos tão belos. Naquele tempo, eu ouvia histórias infantis ainda em discos compactos, coloridos, e podia acompanhar os textos nos livrinhos que vinham junto com eles.

A do trenzinho era uma das minhas favoritas, embora seja difícil falar qual delas eu realmente preferia. Tinha uma do papagaio que queria sair da gaiola. E também aquela do urubu malandro que capturava uma pomba rolinha para vender aos homens inescrupulosos. Eu torcia, torcia para que o trenzinho chegasse ao seu tão sonhado destino, me levando com ele. E para que o papagaio fosse libertado. E para que a pomba rolinha se livrasse das garras do malvado urubu.

Não importava quantas vezes eu ouvisse cada uma daquelas histórias, a ponto de saber de cor todos os textos e gravuras que via constantemente nos livros. E, na semana seguinte, queria ouvir de novo, como se não soubesse o final. E vibrava. E me sentia feliz com os finais felizes daquelas historietas que também me permitiram conhecer um pouquinho da rica música brasileira. Nara Leão, Gal Costa e Chico Buarque eram os intérpretes daquelas fantásticas melodias, que levavam consigo letras não menos belas.

Hoje, consigo compreender melhor por que os grandes literatos, poetas, compositores, enfim, têm tanta predileção pela infância. É um lado tão romântico quanto aquele que sonha encontrar o par perfeito, a alma gêmea, a felicidade a dois. Por mais que pareça (ou seja mesmo) clichê dizer que as crianças é que são felizes de verdade, nossos corações não cansam de repetir aqueles sentimentos nostálgicos.

Quantas vezes, numa mesa de bar ou durante uma importante reunião cujo assunto já se desviou, não nos pegamos falando dos desenhos animados que assistíamos na TV, das músicas que costumávamos ouvir quando pequenos, das brincadeiras preferidas? E eram todas “melhores” do que as de hoje. Não há cartoons, “baladas” ou brinquedos que cheguem aos pés daqueles da nossa infância. É como comida de vó.

Curioso que, ainda hoje, ouvindo a voz de Edu Lobo entoar o poema de Ferreira Gullar sobre a melodia de Heitor Villa-Lobos (grandes artistas que, graças a Deus, meus pais me permitiram conhecer ainda tenro), acredito ser o menino que vai naquele trem, em busca dos mesmos sonhos de outrora. A vida, a cidade, a noite, tudo continua a girar sem destino, em busca do dia novo, da nova harmonia da vida.

Pela terra, pela serra, pelo mar, pelo ar, o trenzinho caipira vai nos conduzindo em direção àquilo que procuramos a cada dia de nossas vidas. No caminho, pedras, percalços e, por vezes, um descarrilamento. Mas sempre colocamos os trilhos no lugar, porque o caminho a percorrer é grande, e não queremos parar no meio. Alguns ainda tentam desistir, mas, ainda que pela curiosidade, são impelidos à frente. Normalmente, os que enfrentam os maiores obstáculos são os mais obstinados.

Hoje, os discos compactos e coloridos já se tornaram CDs, também compactos e coloridos, e posso ouvir o Edu Lobo cantar numa gravação digital, reproduzida por um aparelho que é bem mais de dez vezes menor do que aquele antigo “som” que desde criança aprendi a manusear, porque queria colocar os meus próprios discos, com todo o cuidado para não estragar.

E hoje, quando ouço o Trenzinho, ainda não me canso de repetir a faixa, que chega a fazer brotar lágrimas nos meus olhos. Hoje, pego o violão, tentando acompanhar a canção, mas meus dedos endurecidos pela falta de prática e os ouvidos, um pouco calejados pelas dificuldades do mundo, não me permitem ser fiel a toda aquela beleza. Então, fecho os olhos e procuro escutar com a alma, deixando que cada nota e cada palavra me evoquem um sentimento que é, ao mesmo tempo, novo e antigo. Alegre e triste. Nesses momentos, sinto-me plenamente feliz, porque ainda não perdi a minha capacidade de acreditar. De sonhar. De me emocionar de verdade. E de viver.

Na interpretação de Edu Lobo, conheci o poema de Ferreira Gullar, a música de Villa-Lobos. E naquele velho equipamento, na sala daquela casa que tanto amei em Ouro Preto, aprendi que existe um trem que pode nos levar para onde quisermos.

À querida amiga Marcinha, por quem meu carinho há muito deixou de ser simplesmente especial. Que você realize todos os sonhos que acalenta, mas nunca se esqueça de que o aprendizado edificante é a chave para a verdadeira felicidade.

03/04/2005 (domingo) – 12:56

(Publicado originalmente às 20h16 de 03/04/2005, em http://marcosarthur.blogspot.com.)


Alfarrábios (IX)

E como esta última quinzena está pobre de posts, deixo mais uma inquietude para você refletir.

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Inquietude V (Contradição) 

Belo Horizonte, 26 de março de 2005 (domingo) – 15:38

Ao mesmo tempo em que um turbilhão de coisas assola a minha mente, incitando-me à escrita, por (muitas) vezes, tenho dificuldades em começar. Em desenvolver. Em concluir. Então, procuro simplesmente fazer e, no final, deixar que avaliem o resultado.

Frequentemente, tenho me lembrado daquela fábula de La FontaineO velho, o menino e a mulinha, cuja riqueza conheci numa versão de Monteiro Lobato. Vou reproduzi-la, para que o leitor melhor me compreenda:

O velho, o menino e a mulinha

O velho chamou o filho e disse:

– Vá ao pasto, pegue a bestinha ruana e apronte-se para irmos à cidade, que quero vendê-la.

O menino foi e trouxe a mula. Passou-lhe a raspadeira, escovou-a e partiram os dois a pé, puxando-a pelo cabresto. Queriam que ela chegasse descansada para melhor impressionar os compradores.

De repente,

– Esta é boa! Exclamou um viajante ao avistá-los. O animal vazio e o pobre velho a pé! Que despropósito! Será promessa, penitência ou caduquice?

E lá se foi, a rir.

O velho achou que o viajante tinha razão e ordenou ao menino:

– Puxa a mula, meu filho. Eu vou montado e assim tapo a boca do mundo.

Tapar a boca do mundo, que bobagem! O velho compreendeu isso logo adiante, ao passar por um bando de lavadeiras ocupadas em bater roupa num córrego.

– Que graça! – exclamaram elas. O marmanjão montado com todo o sossego e o pobre menino a pé… Há cada pai malvado por este mundo de Cristo… Credo!…

O velho danou e, sem dizer palavra, fez sinal ao filho para que subisse à garupa.

– Quero só ver o que dizem agora…

Viu logo. O Izé Biriba, estafeta do correio, cruzou com eles e exclamou:

– Que idiotas! Querem vender o animal e montam os dois de uma vez… Assim, meu velho, o que chega à cidade não é mais a mulinha; é a sombra da mulinha…

– Ele tem razão, meu filho, precisamos não judiar do animal. Eu apeio e você, que é levezinho, vai montado.

Assim fizeram, e caminharam em paz um quilômetro, até o encontro dum sujeito que tirou o chapéu e saudou o pequeno respeitosamente:

– Bom dia, príncipe!

– Por que, príncipe? – indagou o menino.

– É boa! Porque só príncipes andam assim de lacaio à rédea…

– Lacaio, eu? – esbravejou o velho. Que desaforo! Desce, desce, meu filho e carreguemos o burro às costas. Talvez isto contente o mundo…

Nem assim. Um grupo de rapazes, vendo a estranha cavalgada, acudiu em tumulto, com vaias:

– Hu! Hu! Olha a trempe de três burros, dois de dois pés e um de quatro! Resta saber qual dos três é o mais burro…

– Sou eu! Replicou o velho, arriando a carga. Sou eu, porque venho há uma hora fazendo não o que quero mas o que quer o mundo. Daqui em diante, porém, farei o que me manda a consciência, pouco me importando que o mundo concorde ou não. Já vi que morre doido quem procura contentar toda gente…

(LOBATO, Monteiro. Fábulas. Histórias de Tia Nastácia. Histórias Diversas. Editora Brasiliense. São Paulo, 1973)

A fábula, por si só, com toda a genialidade daqueles que a escreveram e aplicaram em suas experiências de vida, já valeria o título desta humilde reflexão. Porém, inquieto como sou, prefiro prosseguir. Aliás, outorgando a mim mesmo a permissão para generalizar, é impressionante como não nos contentamos quase nunca. Sempre há algo faltando, ou sobrando. Vontade de ir e de ficar. Eu diria mesmo que a luz e as trevas, em vários momentos da vida, nos atraem com igual intensidade. O animal e o humano brigam dentro de nós como se fôssemos uns e outros, diferentes criaturas habitando um mesmo coração. Um mesmo cérebro. Afinal, não é o homem “animal racional”?

Das maiores contradições que temos, por exemplo, é a capacidade de desdenhar a conquista. A vontade de superar os limites é sempre mais importante do que alcançar qualquer dádiva, por mais maravilhosa que seja. A realização está sempre aquém do que queremos depois. O reconhecimento nos insufla o orgulho, é verdade, mas estamos sempre desejando mais. Seria para nos orgulharmos a tal ponto que os outros se tornassem, para nós, apenas centelhas insignificantes de vida, submissas à nossa vontade? (Lembrando que Leonardo Boff foi excomungado pela Igreja Católica, entre outras coisas, porque disse que o homem havia criado Deus, e não o contrário.)

É quase pitoresco como em nossas vidas medíocres vamos tentando fazer com que os nossos “semelhantes” nos concedam os louros da vitória, a cada novo passo. Quando os nossos “iguais” não agem da forma como gostaríamos, decepção. Então, os diminuímos, tornando-os criaturas inferiores e sem importância, relegando partes daquele mesmo ser que outrora admirávamos tanto, ao ostracismo. Mas, se são nossos iguais, porque insistimos em dizer que somos indivíduos? Porque temos diferentes impressões digitais? Arcadas dentárias? Íris? Mapas genéticos? Fluidos extrassensoriais?

Ah, pequenas centelhas de vida subordinadas ao próprio egoísmo! Somos iguais, semelhantes, de fato, porque é impressionante como conseguimos agir todos com os mesmos defeitos, as mesmas qualidades, variando, em cada um, apenas a intensidade com que surgem em nossos íntimos. E a intensidade com a qual os externamos, porque se tem algo que nos inibe (e não adianta dizer que não), é o controle. Da família. Dos amigos. Da sociedade.

Errou, punido será. Mas o ser humano é tão controvertido que sequer uma regra simples é aplicada de fato, porque a fórmula comportamental de causa e efeito está longe de ser uma regra, pelo menos do ponto de vista míope, hipermetrope e astigmático do homem. Porque não importa a distância, sempre enxergamos algo a mais. Ou a menos. E sempre há elementos que simplesmente não vemos. Então, vale o consenso. Porque nem mesmo as provas do mundo são capazes de mudar a natureza humana. Concorde. Discorde. E que nos reste, por fim, a consciência.

26/03/2005 – 16:26

(Publicado originalmente às 17h59 de 27/03/2005, em http://marcosarthur.blogspot.com.)

Alfarrábios (VIII)

Se o leitor esperou pela reedição da última semana, peço desculpas, pois fiquei devendo. Então, sem mais delongas, aí vai.

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Inquietude IV (Vazio)

Belo Horizonte, 24 de fevereiro de 2005 – 01:36

É isso mesmo que sinto. Uma coisa estranha, inexplicável, que perturba o imo da alma. Mexe com todas as impressões, todos os campos da vida. Como se fosse impossível viver sem que isso existisse. Dilacera, espreme, sem exprimir. O que pode ser?

23/02/2005 – 01:45

(Publicado originalmente às 17h59 de 1º/03/2005, em http://marcosarthur.blogspot.com.)

Alfarrábios (VII)

Seguindo com as reedições, o post que vem hoje nada mais é do que um devaneio longínquo que foi ironicamente intitulado Fato. Espero que evoque coisas boas, coisas ruins, mas, principalmente, que faça refletir. Sempre na busca pelo “ser melhor”. Cada um com o seu pensamento. Cada um com o seu fato.

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Inquietude III (Fato)

Belo Horizonte, 18 de janeiro de 2005 – 02:35

Olhos marejados, fitou o horizonte como se buscasse alguma solução para sua angústia reprimida. Não encontrou. Lentamente, foi retomando o foco, observando, à sua frente, aquele mesmo Café. O mesmo em que, algumas vezes, estiveram juntos, falando sobre a vida ou rindo das banalidades que ela proporciona. Lembrou-se das conversas, dos chopes, dos cafés. Sentiu-se pequeno.

Alguma coisa o incomodava entre a sua aparente insignificância e a importância de seus atos diante do aprendizado de quantos lhe cercavam e, sobretudo, dele mesmo. Absorto, não via, senão, o passado recente, em que algo lhe fustigava a alma, obrigando-o a refletir. Mais uma vez, a verdade havia sido preferida, em detrimento das conseqüências imediatas. Lembrava-se daquela comparação com o diamante: a jóia mais rara, mais brilhante, mais pura e mais valiosa, porém, a mais dura. Mesmo assim, não omitiu.

Sabia que aquele ato podia lhe custar muito, embora a muitos parecesse banal, à primeira vista. “Afinal, cada um tem o direito de pensar como quer”, era o que acreditava. O que lhe entristecia não era o fato em si, mas o que ele provocara, esmiuçando as mais expostas inferioridades do ser humano. Em todos, o orgulho, o egoísmo, a individualidade levada ao extremo. Em todos, a ignorância do que era mais importante.

“É essa a conveniência do livre arbítrio”, pensava consigo. Mas continuava a crer que o “algo maior” deveria prevalecer. E prevalecia. Não deixou de assumir o que lhe competia, encarando o erro como possibilidade de crescimento. Era assim que devia ser. Então, se perguntou onde estaria o equívoco. Não soube ao certo responder. No fundo, sentia uma enorme contradição: havia ou não caído em desatino? Preferiu deixar a cada um decidir como enxergar.

Algum tempo depois, conversaram. Viu que ambos, de certa forma, imputavam-lhe algum deslize, embora em ângulos diferentes. Concluiu, então, que, ao mesmo tempo, errara e acertara. E lembrou-se daquelas primeiras aulas de Física, em que a professora garantira que o movimento “depende do referencial”. Desde aquela aula, aquilo ficou marcado e ele compreendera melhor (mas não totalmente) o que era o tão controvertido “ponto de vista”.

Por instantes, sentiu-se saudável, acreditando que as divergências que constroem o mundo são necessárias para que ele alcance um patamar superior. Durante aqueles dias, havia sido apoiado por amigos, simplesmente porque o amavam e nada mais. Podiam até mesmo discordar do que ele havia proposto, da forma como pensava ou agia. Mas o amavam e isso bastava para que o compreendessem.

Alguns dias depois, falou. Falou e ouviu. De segundos, de terceiros. Refletiu mais um pouco e, nem de longe, sentiu-se mais íntegro. Porém, vislumbrou novos caminhos, novas possibilidades. É que ele acreditava realmente que o amor, o verdadeiro amor, aquele que buscava com todas as suas forças, venceria os convencionalismos, embora essa crença fosse o clichê mais comumente usado nas situações difíceis.

Nesse momento, parou de problematizar. Preferiu deixar os corações e mentes alcançarem sua própria plenitude de acordo com o tempo – aquele elemento que o homem criou para medir razão e sentimento – que vai passando sem avisar e, sem esperar ou parar, continua seu caminho pela eternidade. Então, reuniu os fragmentos de sua angústia e decidiu viver, amar e buscar aquilo que os homens ainda não encontraram: a felicidade. Nesse momento, voltando a si, sorriu, certo de que o mundo nada mais é do que o reflexo dos nossos próprios pensamentos.

18/01/2005 – 03:13

(Publicado originalmente às 10h49 de 18/01/2005, em http://marcosarthur.blogspot.com.)


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